domingo, 28 de junho de 2009

Juazeiro Centenário: um milhão de juazeiros

Padre Cícero inspira campanha ambiental

Juazeiro do Norte. Um milhão de mudas de juazeiro serão distribuídas até 2011, ano do centenário da terra do Padre Cícero. É com inspiração visionário do sertão que nasce o projeto Planta do Centenário de Juazeiro, já registrado no Ministério do Turismo. A inspiração foi a visão romeira. Os fiéis costumam levar para casa caroços de frutas adquiridas no município. A planta do centenário é considerada símbolo das caatingas e a mais tipicamente nordestina. Uma árvore de vida longa, podendo passar de 100 anos.

Nas reuniões que realiza com os romeiros no Círculo Operário, um testemunho chamou a atenção da irmã Annette Dumoulin, da Pastoral das Romarias. “Uma fretante responsável por um grupo de romeiros contou uma coisa que achei super simpática”. Há quatro anos, ao consumir as frutas da cidade juazeirense, os viajantes passaram a levar os caroços e plantar em suas terras. Agora começam a comer do que plantaram. “Achei a idéia extraordinária. Na mentalidade do povo, tudo que sai de Juazeiro tem uma certa sacralidade”, acrescenta.

A idéia foi adotada pela Comissão do Centenário, da qual Irmã Annette faz parte. A Fundação Mussambê será responsável pela operacionalização dos trabalhos. As mudas estão em fase de teste de germinação e serão distribuídas para os romeiros em tubetes biodegradáveis, feitos de amido.

A previsão inicial era que as mudas pudessem ser distribuídas em setembro, por conta da romaria de Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade. Mas o início da campanha foi adiado para o final de janeiro e início de fevereiro de 2010, com a romaria de Nossa Senhora das Candeias. São de 70 a 90 dias para germinar o pé de Juazeiro. Até a distribuição, deve ser em torno de 150 dias. Os lugares para o plantio estão sendo estudados.Em princípio, serão distribuídas entre 200 mil e 300 mil mudas, para até 2011 chegar a um milhão. Segundo o presidente da Fundação, Daniel Walker Júnior, além da distribuição, será feito um cadastro com os romeiros para acompanhar o desenvolvimento das árvores em cada local. “Seja por carta, e-mail, telefone ou até no local, faremos esse acompanhamento”, diz.

A boa aceitação da idéia por parte da comissão já foi levada às reuniões da Maçonaria e bem aceita pelas pessoas. “A gente pretende fazer um mutirão e pedir aos romeiros para reflorestar o sertão do Nordeste. Isso é muito ligado aos conselhos do padre Cícero, de convidar o povo a ter mais vida, principalmente para esse problema de reflorestamento, da seca”, explica a irmã Annette.

De acordo com ela, para além dos símbolos e monumentos que envolvem o santo popular, é importante dar vida ao testemunho de Padre Cícero sobre a necessidade de preservar a natureza do sertão. A distribuição não será lançada de qualquer jeito. Os romeiros, além das orientações dos técnicos, receberão, no último dia de cada romaria, a benção na despedida do meio-dia. Uma forma de encomendar o que os romeiros consideram sagrado.

O Projeto Planta do Centenário, segundo Daniel Walker, além de contemplar dimensões histórico-religiosas, considera toda uma realidade preocupada com a dimensão ambiental, principalmente do contexto nordestino, região de maior nível de desertificação do País. Tendo em vista que a grande maioria dos visitantes do Juazeiro é nordestina, estes serão os maiores beneficiados.

Texto extraído do Jornal Diário do Nordeste, Secção Regional, de 28/06/2009, da repórter Elizângela Santos. Foram feitas pequenas alterações para adaptação ao blog.
Foto: Elizângela Santos

Doce Saudade...

Engenhos resistem à crise

Crato. Os poucos engenhos do Cariri que resistiram à crise da agroindústria canavieira iniciaram a moagem. Dos quase 200 engenhos que funcionaram no Cariri na década de 60, restam somente dez. Destes, apenas quatro estão operando. A falência dos engenhos deixou marcas profundas: riqueza, prestígio, trabalho, pobreza, aroma e saudade, Entre a vida e a morte, os sobreviventes procuram alternativas para continuar rodando. Uma delas é a fabricação de açúcar mascavo, um produto orgânico extraído do caldo da cana-de-açúcar, que substitui o açúcar branco e refinado.

É o caso do Engenho São Pedro, localizado na saída de Barbalha para Missão Velha. Desde o ano passado que a rapadura foi substituída pelo açúcar mascavo. A iniciativa é do engenheiro civil Everardo Sampaio, que tem um amor telúrico pela atividade. Ele cresceu na bagaceira do Engenho São Pedro, de seu pai. “Reativar o setor é uma atividade saudosista”, justifica Everaldo, acrescentando que a fabricação de rapadura dá prejuízo. “A gente enfrenta a falta de mercado e os cheques sem fundos”, afirma.

A solução, portanto, segundo Everardo, foi fabricar o açúcar mascavo que é vendido para uma empresa de Goiânia. Everardo diz que, “apesar da perseguição do governo, que coloca fiscalização na porta do engenho, exigindo até carteira de habilitação para tratoristas, a iniciativa vem dando certo. O engenho ainda não entrou para o cemitério de fogo morto que existe na região do Cariri”, comemora o produtor.

Sabores variados

O Engenho Padre Cícero, localizado no Sítio Bulandeira, município de Barbalha, mantém a fabricação de rapadura, mas está inovando com a venda de batida, um produto derivado do mel, de doce refinado, que é negociado, principalmente, nas épocas de romarias de Juazeiro. Outra alternativa foi a fabricação de tabletes de rapadura, uma espécie de bombom com vários sabores.

Na verdade, o maior desafio é a falta de mercado. O médico Napoleão Tavares Neves, que também foi criado na bagaceira do engenho de seu pai, Joaquim Neves, no município de Porteiras, diz que, na época do apogeu da rapadura, Barbalha era a “capital nacional” do derivado, com uma produção de 300 mil cargas por safra, 30 milhões de unidades. Hoje, de acordo com Antônio Sampaio, não chega a 40 mil cargas por ano. Cada carga corresponde ao total de 100 rapaduras.

O Cariri nasceu na sombra dos engenhos de rapadura, ouvindo o apito da caldeira e sentindo o cheiro gostoso do mel quente. Junto com este saudosismo, floresceu também uma aristocracia rural que ainda hoje apresenta resquícios. A professora Miralva Ferreira Guedes Pereira é pesquisadora e agente cultural do Instituto de Memória do Povo Cearense (Imopec). Segundo ela, “o trabalho nos engenhos desenvolvia várias relações entre os grandes proprietários e os trabalhadores” (escravos, moradores e assalariados).

Os bens materiais do senhor de engenho e a pompa de seus sobrenomes, segundo Miralva, eram repassados por herança aos filhos, garantindo, assim, a permanência do poder e submissão dos trabalhadores. A pesquisadora afirma que essas práticas continuaram até a primeira metade do século XX, quando filhos de donos de engenhos casavam-se, também, com filhas de senhores da mesma atividade econômica. Além disso, pertenciam aos mesmos partidos políticos.“Os filhos de donos de engenhos estudavam nas grandes capitais e nas melhores instituições, ou seja, eram famílias aristocráticas e viviam como tal”, afirma Cecília Sampaio Monteiro, formada em Economia e neta, filha e esposa de donos de engenhos no Crato.

Ao citar alguns depoimentos de trabalhadores e proprietários do setor, Miralva diz que “ainda hoje temos, no Cariri, alguns fatores que impedem o fortalecimento da agricultura e o entendimento entre proprietário e trabalhador”. O mercado nacional sobressaindo-se sobre o mercado regional, segundo afirma, é fator decisivo para o enfraquecimento do cultivo da cana-de-açúcar e a produção nos engenhos.

A rapadura foi substituída por doces industrializados e a cachaça brejeira cedeu espaço para bebidas com menos teor alcoólico, tidas mais sociáveis, como a cerveja. O secretário de Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará, Camilo Santana, está apostando na instalação de mini-usinas para fabricação de álcool e cachaça na tentativa de amenizar a crise do setor. A expectativa entre os produtores é grande.

Texto extraído do Jornal Diário do Nordeste, Secção Regional, de 28/06/2009, de autoria do Repórter ANTÔNIO VICELMO, com pequenas alterações para melhor adaptação ao blog.

sábado, 27 de junho de 2009

A Fogueira tá queimando....

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé neste salão

Dança Joaquim com Isabé
Luiz com Iaiá
Dança Janjão com Raqué
E eu com Sinhá
Traz a cachaça, Mané
Eu quero vê, quero vê páia voar

(São João na Roça - Luiz Gonzaga)

domingo, 14 de junho de 2009

Crato: São João Festeiro

Mais uma cidade caririense comemora a tradição junina. Hoje, dia 14, na cidade de Crato teve inicio o São João Festeiro. Serão dez dias de muita festa e alegria. Forró de primeira qualidade, comidas tipicas, grupos da cultura popular tradicional, enfim uma grande festa junina.
E Viva São João!!!

JUAFORRÓ 2009

As Festas Juninas continuam a todo vapor no Cariri. Ontem, 13 de junho, dia de Santo Antônio, enquanto Barbalha encerrava os festejos em homenagem ao Santo de Pádua, em Juazeiro do Norte, terra do Santo do Nordeste, Padre Cícero Romão Batista, era aberto oficialmente a IX edição do JUAFORRÓ. Neste ano de 2009, o JUAFORRÓ apresentou uma novidade: a realização de festas descentralizadas, realizadas em vários bairros do municípios, tendo inicio no dia 08 de junho, no distrito da Palmeirinha, estendendo-se até o dia 12, com a festa sendo realizada no bairro dos Franciscanos. A seguir, as principais atrações da programação no Parque Padre Cícero.

13 DE JUNHO – Dominguinhos, Chico Pessoa e Maurício Jorge;
14 DE JUNHO – Geraldinho Lins, Forró Lenhada e Índio e sua Tribo;
15 DE JUNHO – Detonautas do Forró, Banda Feras e Fogo e Paixão;
16 DE JUNHO – Alcymar Monteiro, Forró de Taipa e Forró Pega Leve;
17 DE JUNHO – Limão com Mel, Flavio Leandro e Rabo de Sereia;
18 DE JUNHO – Zezé di Camargo & Luciano e Fran e Felix;
19 DE JUNHO – Namoro Novo e Caninana do Forró;
20 DE JUNHO – Nando Cordel, Joquinha Gonzaga e Luiz Fidelis
21 DE JUNHO – Elba Ramalho, Cicero do Assaré, e Ciceu e Banda;
22 DE JUNHO – Banda Líbanos, Forró Remexe e Forró Boca de Moça
23 DE JUNHO – Leonardo, Fabio Carneirinho e Joãozinho do Exu .

OBS: A PROGRAMAÇÃO COMPLETA ENCONTRA-SE NO SITE: http://www.juazeiro.ce.gov.br/

Barbalha encerra os festejos em homenagem a Santo Antônio

Após treze dias de muitos festejos em homenagem ao seu Santo Padroeiro, iniciados em 31 de maio, com a Festa do Pau da Bandeira, Barbalha vivenciou ontem, dia 13, o encerramento das homenagens a Santo Antonio de Pádua. Pela manhã, às 9hs, foi realizada a Celebração da Santa Missa, presidida pelo Bispo Diocesano de Crato, Dom Fernando Panico. À tarde, a partir das 16h, ocorreu a tradicional Procissão com a imagem de Santo Antônio, acompanhada pelas imagens de todos os padroeiros e padroeiras das capelas do município. A Procissão foi encerrada com a Bênção do Santíssimo.



Obs: As fotos são de Josélio Araújo e pescadas no site http://www.cetama.com.br/

terça-feira, 2 de junho de 2009

Imagens do Pau da Bandeira 2009

Carregando o pau da bandeira

Momento de Oração, antes do levantamento do pau
Pense num casal arretado

Bandeira de Santo Antônio

Capitão do Pau, Rildo Teles, e Carregadores

Quarteto de peso: Rosember Cariry, Olga Paiva,
Antônio Vicelmo e Oswald Barroso

Eliomar Mazzoco - Comissão Espiritosantense de Folclore
e Américo Córdula, do MinC

Prof. Josier e Carregadores

Gledson e Carregadores

Eu, Graça Martins e Pará

Padre Renato, eu e Da Paz


Profa. Juraci, Edvar, Jane e José Manoel


"Momento Mágico"

Penitentes

Bacamarteiros


Dra. Marciana e amigas em busca de casamento

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A devoção a Santo Antônio e a Festa do Pau da Bandeira

A devoção a Santo Antônio, no Brasil, remonta ao período colonial. Vergílio Gamboso, citando Frei Antônio de Santa Maria de Jaboatão, afirma que no Brasil dos primórdios “não era raro encontrar mais de uma imagem do Santo no altar … e que cada família fazia questão de ter o “seu” SA!” (1). Frei Pedro Sinzig, no seu belo trabalho sobre o Santo, relaciona diversas igrejas do período colonial que possuíam (e ainda possuem) a imagem do Taumaturgo de Lisboa (2). Ainda sobre a devoção a Santo Antônio no período colonial, Mary Del Priori no seu trabalho intitulado Festas e Utopias no Brasil Colonial registra os festejos em homenagem ao Santo de Pádua (3).

Com o decorrer dos tempos Santo Antônio se tornou um dos santos mais queridos do Brasil. É o Santo com o maior número de Freguesias, cerca de 228, conforme atesta Câmara Cascudo (4). Essa popularidade, ao que parece, se deve a sua múltipla especialidade: Santo casamenteiro, Santo das coisas perdidas e Santo do ‘pão dos pobres’(5).

Em Barbalha, município situado no extremo sul do Estado do Ceará, na região do Cariri cearense, distante cerca de 600 Km de Fortaleza, a devoção a Santo Antônio remonta também ao período colonial, mais precisamente a 1790, ano da inauguração da sua capelinha no sítio Barbalha. Em 1838, a modesta capela foi elevada à categoria de Freguesia, sendo desmembrada da de São José de Missão Velha (6).

A exemplo de muitas outras cidades brasileiras, Barbalha cresceu e se desenvolveu em torno da Igreja do seu Santo Padroeiro. Assim oito anos após a criação da Freguesia, o povoado de Barbalha é elevado à categoria de Vila, sendo desmembrado do território de Crato. Em 1876, a Vila é elevada à Cidade (7). Essa relação entre o Santo Padroeiro e o crescimento da Cidade, é expressada pelo sentimento do barbalhense:
“Santo Antônio de Pádua, padroeiro de Barbalha,
Nós te saudamos, como cidadão imortal desta comunidade que viste florescer e progredir em torno de tua capela - hoje transformada em magnífico templo” (8).

O culto ao santo padroeiro, uma herança do catolicismo popular medieval (9), se desenvolveu de tal forma em Barbalha que hoje atrai fiéis das diversas cidades circunvizinhas. Nesse sentido, Barbalha se transformou num importante centro regional de devoção ao Santo de Pádua.

A Festa de Santo Antônio de Barbalha, no entanto, não é apenas uma festa religiosa. Nos Livros de Tombo da Paróquia (1: de 1935 a 1958; 2: 1959 a 1993), o primeiro registro referente à Festa, de 1947, divide a mesma em dois momentos: a parte religiosa, composta da trezena de Santo Antônio e da Celebração Eucarística, e a parte externa, com seus leilões e quermesses, denominada de “parte profana da Festa” (10).

Dessa época em diante, essa divisão foi se acentuando. De um lado, os festejos religiosos: hasteamento da Bandeira de Santo Antônio, novena ou trezena, memória litúrgica do Santo, procissão e saudação a Santo Antônio. Do outro lado os festejos sociais: carregamento do pau da bandeira, barracas com bebidas e comidas típicas, leilões, shows artísticos, etc.(11).
Essa dicotomia da Festa de Santo Antônio, estabelecida pelos seus organizadores, encobre uma questão fundamental: a coexistência do sagrado e do profano no dia da abertura da mesma, dia do Cortejo do Pau da Bandeira e do Hasteamento da Bandeira do Santo Padroeiro. O dia tem início com uma alvorada, às 05:00h da manhã. Às 09:00h, há a Celebração da Palavra, ou Para - Liturgia, na Igreja Matriz. Na Celebração, há um momento em que são ofertados a Santo Antônio diversos produtos agrícolas e artesanais típicos do Município, inclusive a aguardente de cana. É importante observar que esse momento foi instituído em 1984, porém como Celebração Eucarística. Em 1995, foi substituída pela Celebração da Palavra, uma vez que a informalidade existente na Missa, sobretudo no rito do Ofertório, estava transformando a mesma num momento profano, conforme relato do Dr. Napoleão Tavares Neves.(12). Nessa hora, a movimentação na Cidade já é intensa, inclusive na Praça da Matriz, onde diversos grupos folclóricos “ensaiam” suas apresentações. Há também a presença de diversos grupos no interior da Igreja, participando da Celebração.

Após a Celebração da Palavra, ocorre o Desfile dos Grupos Folclóricos, da Praça da Matriz ao Parque Municipal. Participam do Desfile grupos de reisados, de quadrilhas, maneiro pau, caretas, bacamarteiros, bandas cabaçais, capoeiristas, banda de música, além dos penitentes e da Carroça com a “Cachaça do Seu Vigário”. À frente, puxando o Desfile, estão as autoridades públicas e eclesiásticas da cidade. O Desfile é encerrado com os pronunciamentos do Prefeito, Deputados, Vereadores e do Vigário e com as apresentações folclóricas.

Esse Desfile foi instituído em 1973, quando da mudança dos festejos sociais da Praça da Matriz para a Praça da Estação, momento em que a Prefeitura passou a assumir, com a Paróquia, a organização desses festejos. No período da tarde ocorre o Cortejo do Pau da Bandeira, concluído com o hasteamento da Bandeira de Santo Antônio, em frente à Igreja Matriz (13).

Segundo Napoleão Tavares Neves, em Barbalha, o levantamento do Pau da Bandeira em frente à Igreja Matriz, remonta à década de 60 do século passado, período em que o Missionário Pe. José Antônio Maria Ibiapina esteve na cidade (14). Conforme esse pesquisador, o referido padre em suas missões pelo Nordeste, costumava incentivar entre os fiéis o hábito do hasteamento da Bandeira do Santo festejado, num mastro colocado em frente à Matriz (15).

No início dos anos 30 do século em curso, “o velho costume foi dinamizado” (16). José Edvar Costa de Araújo cita o ano de 1928 como o ano em que o Cortejo do Pau da Bandeira passou a integrar a programação oficial da Festa de Santo Antônio. Para José Edvar,
“naquele momento, o carregamento do Pau já tinha uma personalidade própria; festa do estrato subalterno se tornando paralela à festa unificadora do estrato dirigente” (17).

Na década de 70, mais precisamente em 1973, ocorreram novas mudanças na organização da Festa. Essas mudanças foram frutos da conjugação de esforços entre a Paróquia e o Poder Público Municipal “no sentido de dar uma dimensão folclórico-artístico-cultural ao evento, estimulando-se o artesanato, a culinária típica e as danças e folguedos populares” (18). Assim, os festejos externos passaram a ser realizados na Praça Engenheiro Dória, mais conhecida por Praça da Estação, sob a coordenação da Prefeitura. Essa dinamização dos festejos sociais teve como objetivo desenvolver a potencialidade turística do Município, atraindo, para a Festa, visitantes e dividendos (19). A Festa deixou de ser um evento local, dos barbalhenses, e se transformou na festa da “confraternização da comunidade caririense” (20).

O dia da Abertura da Festa, dia do Cortejo do Pau da Bandeira e Hasteamento da Bandeira, também sofreu mudanças. Passaram a integrar esse dia, o Desfile e apresentações dos grupos folclóricos. Ao mesmo tempo, o Cortejo passou a ser valorizado enquanto elemento folclórico, expressão da cultura popular (21).

Em 1984, ocorreram duas inovações na Festa. A primeira foi a introdução da Missa, às 09:00h da manhã, no dia do Cortejo do Pau da Bandeira. A partir desse ano, a Abertura Oficial da Festa se dá com a Celebração Eucarística, e não mais com o hasteamento da Bandeira. A segunda inovação foi a introdução da participação dos padroeiros das capelas dos sítios e dos distritos no Cortejo Processional que encerra os festejos religiosos (22). Com essas duas modificações, percebe-se a preocupação em fortalecer o aspecto religioso da Festa.

Em 1992, ocorreu mais uma significativa modificação na organização da Festa: os festejos sociais passaram a ser realizados no Parque Municipal, especialmente construído para esse fim. O Parque, com 7 (sete) hectares, passou a comportar os shows, barracas, parques de diversão, enfim toda a programação social da Festa. Isso demonstra o crescimento desse aspecto da Festa. Podemos mesmo dizer que houve uma massificação dos festejos externos, inclusive com a participação de artistas nacionais (23).

De acordo com as nossas observações, dividimos a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio em quatro momentos. O primeiro consiste na escolha da árvore que será cortada. No dia determinado, sob o comando do Capitão da Bandeira, um grupo de pessoas se desloca até o Sítio São Joaquim, de onde o Pau é retirado desde 1928, para a escolha da árvore. Num clima de festa, com banhos, bebidas, comidas e muitas brincadeiras, eles percorrem todo o sítio até encontrarem a árvore desejada.

O segundo momento da Festa é do corte da árvore escolhida, que se realiza cerca de oito a dez dias antes do dia do Cortejo. Além do grupo que participou da escolha, participam também desse momento autoridades públicas e eclesiásticas. Assim como no dia da escolha, esse dia é também de festa: banhos, comidas e bebidas fazem parte desse momento.

O terceiro momento é o da festa propriamente, ou o Cortejo do Pau da Bandeira. Este se realiza ou no último domingo de maio ou no primeiro de junho. É o dia da Abertura da Festa de Santo Antônio. Neste dia, os carregadores do Pau, cerca de 60 homens, se deslocam, uns mais cedo, outros por volta das 10:00h, ao Sítio São Joaquim, distante 5 km da cidade, onde o Pau se encontra “em repouso. O Cortejo tem início por volta das 13:30h. A princípio, participam apenas os carregadores e alguns curiosos (jornalistas, pesquisadores, turistas, etc.). No entanto, à medida que o Cortejo se aproxima da cidade, uma verdadeira multidão passa a acompanhá-lo.

Quando o Cortejo chega à cidade, passam a integrar o mesmo a carroça com a “Cachaça do Seu Vigário” e a Bandeira de Santo Antônio. A carroça com a “Cachaça do Seu Vigário” foi criada nos anos 60, e de lá para cá se transformou num símbolo da Festa, participando inclusive do Desfile Folclórico. A cachaça, produto típico do município, é distribuída aos carregadores e participantes do Cortejo.

O Cortejo chega à Praça da Matriz por volta das 17 - 18:00h. Aqui ocorre o último momento da Festa do Pau da Bandeira: levantamento do Pau e hasteamento da Bandeira de Santo Antônio. Sobre esse momento, escreve Napoleão Tavares Neves: “Antes de anoitecer o Pau da Bandeira deve estar hasteado e com a Bandeira do Padroeiro tremulando no seu cimo. A multidão delira. Está aberto, portanto, o maior evento folclórico - religioso do Cariri”. Em seguida, conclui o pesquisador barbalhense: “A partir daí a Festa do Padroeiro bifurca-se: o novenário na Matriz, e os festejos profanos no Parque da Cidade” (24) .

A colocação do Dr. Napoleão revela com muita clareza a estrutura da Festa do Padroeiro de Barbalha: ela é composta de três partes: os festejos sociais, os festejos religiosos e os festejos de Abertura, ou Cortejo do Pau da Bandeira, ou ainda, como é mais popularmente chamado, a Festa do Pau da Bandeira. E nesta não há separação entre sagrado e profano: os dois coexistem harmoniosamente.

Texto escrito por Océlio Teixeira de Souza
Fotos: Océlio Teixeira de Souza

NOTAS:

1 - GAMBOSO, Vergílio. Vida de Santo Antônio. Aparecida (SP): Santuário, 1994. p. 209
2 - SINZIG, (Frei) Pedro. O Thaumaturgo Santo Antônio - na história, na lenda e na arte. Petrópolis (RJ): Centro da Boa Imprensa, 1922.
3 - PRIORI, Mary Del. Festas e utopias no Brasil colonial. SP: Brasiliense, 1994.
4 - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6 ed. BH/SP: Itatiaia/Edusp, 1988. (p. 61).
5 - PILONETTO, (Frei) Adelino G.. Santo Antônio e a devoção popular. IN Antônio: homem evangélico: 800 anos de vida e glorificação. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995. pp. 41 - 52. (Cadernos Franciscanos, 8).
6 - NEVES, (Dr.) Napoleão Tavares. Pequena história da Paróquia de Santo Antônio de Barbalha. Barbalha (CE): 1988. pp. 03 - 10.
7 - CALLOU, Antônio Marchet. Conotações históricas de Barbalha. IN Itaytera, n. 21. Crato (CE): Instituto Cultura do Cariri, 1977. pp. 79 - 91.
8 - DUARTE, Terezinha Couto. Saudação a S. Antônio. IN Itaytera, n. 23. Crato (CE): Instituto Cultural do Cariri, 1979.
9- OLIVEIRA, (Frei) Hermínio B. de. Formação histórica da religiosidade do Nordeste: o caso de Juazeiro do Norte. SP: Paulinas, 1985. Ver especialmente o subtítulo “A religião dos portugueses” (p. 45 - 46), do capítulo três.
10 - Livro de Tombo (1: 1935 - 1958), fl. 40.
11 - Isso pode ser percebido claramente nos registros presentes nos Livros de Tombo e nos cartazes com a programação da Festa.
12 - Essa foi a justificativa dada pelo Dr. Napoleão Tavares Neves, membro do Conselho Paroquial.
13 - Essas informações foram obtidas a partir de conversas com o Dr. Napoleão e da nossa observação ocular, realizada sobretudo neste ano de 1997.
14 - Sobre o Pe. Ibiapina, escreve o Dr. Napoleão: “Padre Ibiapina foi advogado e Deputado Federal antes de ser sacerdote! Formou-se em Direito pela célebre Faculdade de Direito de Olinda e em todo o Nordeste chegou a construir cerca de 223 Casas de Caridade, igrejas, cacimbas, açudes, poços, escolas e cemitérios, desde o Piauí até Pernambuco! Antecipou-se ao DNOCS no armazenamento d’água e ao INAMPS na medicina! Inclusive suas Casas de Caridade eram também hospitais, orfanatos e escolas profissionalizantes. (op. cit., 1988, p. 10 (v. n. 6) ).
Para maiores informações acerca do Pe. Ibiapina, ver o livro do Pe. F. Sadoc de Araújo. Pe. Ibiapina: Peregrino da Caridade. Fortaleza: Gráfica da Tribuna do Ceará, 1995.
15 - NEVES, Napoleão Tavares. “Pau da Bandeira, de Barbalha, um pouco da sua história”.
Esse texto do Dr. Napoleão não foi publicado. Na realidade, ele foi escrito em atendimento a uma solicitação nossa, no ano de 1997.
16 - Ibid.;
17 - ARAÚJO, José Edvar Costa de. O papel político - pedagógico das manifestações da cultura popular na construção de modelos e conceitos de relações sociais - o caso da Festa do Pau da Bandeira, de Barbalha. Tese de mestrado em Educação, apresentada e defendida junto ao Departamento de Educação da UFC, em 1994. p. 111.
18 - NEVES, Napoleão Tavares. op. cit., 1997. (v. n. 15).
19 - Essa perspectiva turística dada à Festa, especificamente aos festejos sociais, está muito clara na fala do Sr. Fabriano Sampaio, Prefeito de Barbalha no quadriênio
1973 - 1976, transcrita e analisada por José Edvar Costa de Araújo (v. n. 17).
20 - Livro de Tombo (2: 1959 - 1993), fl. 66. Assim se pronuncia o Pe. Eusébio de Oliveira Lima, Vigário da Paróquia à época: “Grande movimentação na Praça Engenheiro Dória. É a festa da confraternização da família caririense”.
21 - NEVES, Napoleão Tavares., op. cit., 1994. (v. n. 15)
ARAÚJO, José Edvar Costa de., op. cit., 1994.
22 - Livro de Tombo (2: 1959 - 1993), fls. 106 - 107.
23 - NEVES, Napoleão Tavares., op. cit., 1997 (v. n. 15)
ARAÚJO, José Edvar Costa de., op. cit., 1994.
24 - NEVES, Napoleão Tavares. op. cit., 1997. (v. n. 15).