
A devoção a Santo Antônio, no Brasil, remonta ao período colonial. Vergílio Gamboso, citando Frei Antônio de Santa Maria de Jaboatão, afirma que no Brasil dos primórdios “não era raro encontrar mais de uma imagem do Santo no altar … e que cada família fazia questão de ter o “seu” SA!” (1). Frei Pedro Sinzig, no seu belo trabalho sobre o Santo, relaciona diversas igrejas do período colonial que possuíam (e ainda possuem) a imagem do Taumaturgo de Lisboa (2). Ainda sobre a devoção a Santo Antônio no período colonial, Mary Del Priori no seu trabalho intitulado Festas e Utopias no Brasil Colonial registra os festejos em homenagem ao Santo de Pádua (3).
Com o decorrer dos tempos Santo Antônio se tornou um dos santos mais queridos do Brasil. É o Santo com o maior número de Freguesias, cerca de 228, conforme atesta Câmara Cascudo (4). Essa popularidade, ao que parece, se deve a sua múltipla especialidade: Santo casamenteiro, Santo das coisas perdidas e Santo do ‘pão dos pobres’(5).
Em Barbalha, município situado no extremo sul do Estado do Ceará, na região do Cariri cearense, distante cerca de 600 Km de Fortaleza, a devoção a Santo Antônio remonta também ao período colonial, mais precisamente a 1790, ano da inauguração da sua capelinha no sítio Barbalha. Em 1838, a modesta capela foi elevada à categoria de Freguesia, sendo desmembrada da de São José de Missão Velha (6).
A exemplo de muitas outras cidades brasileiras, Barbalha cresceu e se desenvolveu em torno da Igreja do seu Santo Padroeiro. Assim oito anos após a criação da Freguesia, o povoado de Barbalha é elevado à categoria de Vila, sendo desmembrado do território de Crato. Em 1876, a Vila é elevada à Cidade (7). Essa relação entre o Santo Padroeiro e o crescimento da Cidade, é expressada pelo sentimento do barbalhense:
“Santo Antônio de Pádua, padroeiro de Barbalha,
Nós te saudamos, como cidadão imortal desta comunidade que viste florescer e progredir em torno de tua capela - hoje transformada em magnífico templo” (8).
O culto ao santo padroeiro, uma herança do catolicismo popular medieval (9), se desenvolveu de tal forma em Barbalha que hoje atrai fiéis das diversas cidades circunvizinhas. Nesse sentido, Barbalha se transformou num importante centro regional de devoção ao Santo de Pádua.
A Festa de Santo Antônio de Barbalha, no entanto, não é apenas uma festa religiosa. Nos Livros de Tombo da Paróquia (1: de 1935 a 1958; 2: 1959 a 1993), o primeiro registro referente à Festa, de 1947, divide a mesma em dois momentos: a parte religiosa, composta da trezena de Santo Antônio e da Celebração Eucarística, e a parte externa, com seus leilões e quermesses, denominada de “parte profana da Festa” (10).
Dessa época em diante, essa divisão foi se acentuando. De um lado, os festejos religiosos: hasteamento da Bandeira de Santo Antônio, novena ou trezena, memória litúrgica do Santo, procissão e saudação a Santo Antônio. Do outro lado os festejos sociais: carregamento do pau da bandeira, barracas com bebidas e comidas típicas, leilões, shows artísticos, etc.(11).
Essa dicotomia da Festa de Santo Antônio, estabelecida pelos seus organizadores, encobre uma questão fundamental: a coexistência do sagrado e do profano no dia da abertura da mesma, dia do Cortejo do Pau da Bandeira e do Hasteamento da Bandeira do Santo Padroeiro. O dia tem início com uma alvorada, às 05:00h da manhã. Às 09:00h, há a Celebração da Palavra, ou Para - Liturgia, na Igreja Matriz. Na Celebração, há um momento em que são ofertados a Santo Antônio diversos produtos agrícolas e artesanais típicos do Município, inclusive a aguardente de cana. É importante observar que esse momento foi instituído em 1984, porém como Celebração Eucarística. Em 1995, foi substituída pela Celebração da Palavra, uma vez que a informalidade existente na Missa, sobretudo no rito do Ofertório, estava transformando a mesma num momento profano, conforme relato do Dr. Napoleão Tavares Neves.(12). Nessa hora, a movimentação na Cidade já é intensa, inclusive na Praça da Matriz, onde diversos grupos folclóricos “ensaiam” suas apresentações. Há também a presença de diversos grupos no interior da Igreja, participando da Celebração.
Após a Celebração da Palavra, ocorre o Desfile dos Grupos Folclóricos, da Praça da Matriz ao Parque Municipal. Participam do Desfile grupos de reisados, de quadrilhas, maneiro pau, caretas, bacamarteiros, bandas cabaçais, capoeiristas, banda de música, além dos penitentes e da Carroça com a “Cachaça do Seu Vigário”. À frente, puxando o Desfile, estão as autoridades públicas e eclesiásticas da cidade. O Desfile é encerrado com os pronunciamentos do Prefeito, Deputados, Vereadores e do Vigário e com as apresentações folclóricas.
Esse Desfile foi instituído em 1973, quando da mudança dos festejos sociais da Praça da Matriz para a Praça da Estação, momento em que a Prefeitura passou a assumir, com a Paróquia, a organização desses festejos. No período da tarde ocorre o Cortejo do Pau da Bandeira, concluído com o hasteamento da Bandeira de Santo Antônio, em frente à Igreja Matriz (13).

Segundo Napoleão Tavares Neves, em Barbalha, o levantamento do Pau da Bandeira em frente à Igreja Matriz, remonta à década de 60 do século passado, período em que o Missionário Pe. José Antônio Maria Ibiapina esteve na cidade (14). Conforme esse pesquisador, o referido padre em suas missões pelo Nordeste, costumava incentivar entre os fiéis o hábito do hasteamento da Bandeira do Santo festejado, num mastro colocado em frente à Matriz (15).
No início dos anos 30 do século em curso, “o velho costume foi dinamizado” (16). José Edvar Costa de Araújo cita o ano de 1928 como o ano em que o Cortejo do Pau da Bandeira passou a integrar a programação oficial da Festa de Santo Antônio. Para José Edvar,
“naquele momento, o carregamento do Pau já tinha uma personalidade própria; festa do estrato subalterno se tornando paralela à festa unificadora do estrato dirigente” (17).
Na década de 70, mais precisamente em 1973, ocorreram novas mudanças na organização da Festa. Essas mudanças foram frutos da conjugação de esforços entre a Paróquia e o Poder Público Municipal “no sentido de dar uma dimensão folclórico-artístico-cultural ao evento, estimulando-se o artesanato, a culinária típica e as danças e folguedos populares” (18). Assim, os festejos externos passaram a ser realizados na Praça Engenheiro Dória, mais conhecida por Praça da Estação, sob a coordenação da Prefeitura. Essa dinamização dos festejos sociais teve como objetivo desenvolver a potencialidade turística do Município, atraindo, para a Festa, visitantes e dividendos (19). A Festa deixou de ser um evento local, dos barbalhenses, e se transformou na festa da “confraternização da comunidade caririense” (20).
O dia da Abertura da Festa, dia do Cortejo do Pau da Bandeira e Hasteamento da Bandeira, também sofreu mudanças. Passaram a integrar esse dia, o Desfile e apresentações dos grupos folclóricos. Ao mesmo tempo, o Cortejo passou a ser valorizado enquanto elemento folclórico, expressão da cultura popular (21).
Em 1984, ocorreram duas inovações na Festa. A primeira foi a introdução da Missa, às 09:00h da manhã, no dia do Cortejo do Pau da Bandeira. A partir desse ano, a Abertura Oficial da Festa se dá com a Celebração Eucarística, e não mais com o hasteamento da Bandeira. A segunda inovação foi a introdução da participação dos padroeiros das capelas dos sítios e dos distritos no Cortejo Processional que encerra os festejos religiosos (22). Com essas duas modificações, percebe-se a preocupação em fortalecer o aspecto religioso da Festa.

Em 1992, ocorreu mais uma significativa modificação na organização da Festa: os festejos sociais passaram a ser realizados no Parque Municipal, especialmente construído para esse fim. O Parque, com 7 (sete) hectares, passou a comportar os shows, barracas, parques de diversão, enfim toda a programação social da Festa. Isso demonstra o crescimento desse aspecto da Festa. Podemos mesmo dizer que houve uma massificação dos festejos externos, inclusive com a participação de artistas nacionais (23).
De acordo com as nossas observações, dividimos a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio em quatro momentos. O primeiro consiste na escolha da árvore que será cortada. No dia determinado, sob o comando do Capitão da Bandeira, um grupo de pessoas se desloca até o Sítio São Joaquim, de onde o Pau é retirado desde 1928, para a escolha da árvore. Num clima de festa, com banhos, bebidas, comidas e muitas brincadeiras, eles percorrem todo o sítio até encontrarem a árvore desejada.
O segundo momento da Festa é do corte da árvore escolhida, que se realiza cerca de oito a dez dias antes do dia do Cortejo. Além do grupo que participou da escolha, participam também desse momento autoridades públicas e eclesiásticas. Assim como no dia da escolha, esse dia é também de festa: banhos, comidas e bebidas fazem parte desse momento.
O terceiro momento é o da festa propriamente, ou o Cortejo do Pau da Bandeira. Este se realiza ou no último domingo de maio ou no primeiro de junho. É o dia da Abertura da Festa de Santo Antônio. Neste dia, os carregadores do Pau, cerca de 60 homens, se deslocam, uns mais cedo, outros por volta das 10:00h, ao Sítio São Joaquim, distante 5 km da cidade, onde o Pau se encontra “em repouso. O Cortejo tem início por volta das 13:30h. A princípio, participam apenas os carregadores e alguns curiosos (jornalistas, pesquisadores, turistas, etc.). No entanto, à medida que o Cortejo se aproxima da cidade, uma verdadeira multidão passa a acompanhá-lo.
Quando o Cortejo chega à cidade, passam a integrar o mesmo a carroça com a “Cachaça do Seu Vigário” e a Bandeira de Santo Antônio. A carroça com a “Cachaça do Seu Vigário” foi criada nos anos 60, e de lá para cá se transformou num símbolo da Festa, participando inclusive do Desfile Folclórico. A cachaça, produto típico do município, é distribuída aos carregadores e participantes do Cortejo.
O Cortejo chega à Praça da Matriz por volta das 17 - 18:00h. Aqui ocorre o último momento da Festa do Pau da Bandeira: levantamento do Pau e hasteamento da Bandeira de Santo Antônio. Sobre esse momento, escreve Napoleão Tavares Neves: “Antes de anoitecer o Pau da Bandeira deve estar hasteado e com a Bandeira do Padroeiro tremulando no seu cimo. A multidão delira. Está aberto, portanto, o maior evento folclórico - religioso do Cariri”. Em seguida, conclui o pesquisador barbalhense: “A partir daí a Festa do Padroeiro bifurca-se: o novenário na Matriz, e os festejos profanos no Parque da Cidade” (24) .
A colocação do Dr. Napoleão revela com muita clareza a estrutura da Festa do Padroeiro de Barbalha: ela é composta de três partes: os festejos sociais, os festejos religiosos e os festejos de Abertura, ou Cortejo do Pau da Bandeira, ou ainda, como é mais popularmente chamado, a Festa do Pau da Bandeira. E nesta não há separação entre sagrado e profano: os dois coexistem harmoniosamente.
Texto escrito por Océlio Teixeira de Souza
Fotos: Océlio Teixeira de Souza
NOTAS:
1 - GAMBOSO, Vergílio. Vida de Santo Antônio. Aparecida (SP): Santuário, 1994. p. 209
2 - SINZIG, (Frei) Pedro. O Thaumaturgo Santo Antônio - na história, na lenda e na arte. Petrópolis (RJ): Centro da Boa Imprensa, 1922.
3 - PRIORI, Mary Del. Festas e utopias no Brasil colonial. SP: Brasiliense, 1994.
4 - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6 ed. BH/SP: Itatiaia/Edusp, 1988. (p. 61).
5 - PILONETTO, (Frei) Adelino G.. Santo Antônio e a devoção popular. IN Antônio: homem evangélico: 800 anos de vida e glorificação. Petrópolis (RJ): Vozes, 1995. pp. 41 - 52. (Cadernos Franciscanos, 8).
6 - NEVES, (Dr.) Napoleão Tavares. Pequena história da Paróquia de Santo Antônio de Barbalha. Barbalha (CE): 1988. pp. 03 - 10.
7 - CALLOU, Antônio Marchet. Conotações históricas de Barbalha. IN Itaytera, n. 21. Crato (CE): Instituto Cultura do Cariri, 1977. pp. 79 - 91.
8 - DUARTE, Terezinha Couto. Saudação a S. Antônio. IN Itaytera, n. 23. Crato (CE): Instituto Cultural do Cariri, 1979.
9- OLIVEIRA, (Frei) Hermínio B. de. Formação histórica da religiosidade do Nordeste: o caso de Juazeiro do Norte. SP: Paulinas, 1985. Ver especialmente o subtítulo “A religião dos portugueses” (p. 45 - 46), do capítulo três.
10 - Livro de Tombo (1: 1935 - 1958), fl. 40.
11 - Isso pode ser percebido claramente nos registros presentes nos Livros de Tombo e nos cartazes com a programação da Festa.
12 - Essa foi a justificativa dada pelo Dr. Napoleão Tavares Neves, membro do Conselho Paroquial.
13 - Essas informações foram obtidas a partir de conversas com o Dr. Napoleão e da nossa observação ocular, realizada sobretudo neste ano de 1997.
14 - Sobre o Pe. Ibiapina, escreve o Dr. Napoleão: “Padre Ibiapina foi advogado e Deputado Federal antes de ser sacerdote! Formou-se em Direito pela célebre Faculdade de Direito de Olinda e em todo o Nordeste chegou a construir cerca de 223 Casas de Caridade, igrejas, cacimbas, açudes, poços, escolas e cemitérios, desde o Piauí até Pernambuco! Antecipou-se ao DNOCS no armazenamento d’água e ao INAMPS na medicina! Inclusive suas Casas de Caridade eram também hospitais, orfanatos e escolas profissionalizantes. (op. cit., 1988, p. 10 (v. n. 6) ).
Para maiores informações acerca do Pe. Ibiapina, ver o livro do Pe. F. Sadoc de Araújo. Pe. Ibiapina: Peregrino da Caridade. Fortaleza: Gráfica da Tribuna do Ceará, 1995.
15 - NEVES, Napoleão Tavares. “Pau da Bandeira, de Barbalha, um pouco da sua história”.
Esse texto do Dr. Napoleão não foi publicado. Na realidade, ele foi escrito em atendimento a uma solicitação nossa, no ano de 1997.
16 - Ibid.;
17 - ARAÚJO, José Edvar Costa de. O papel político - pedagógico das manifestações da cultura popular na construção de modelos e conceitos de relações sociais - o caso da Festa do Pau da Bandeira, de Barbalha. Tese de mestrado em Educação, apresentada e defendida junto ao Departamento de Educação da UFC, em 1994. p. 111.
18 - NEVES, Napoleão Tavares. op. cit., 1997. (v. n. 15).
19 - Essa perspectiva turística dada à Festa, especificamente aos festejos sociais, está muito clara na fala do Sr. Fabriano Sampaio, Prefeito de Barbalha no quadriênio
1973 - 1976, transcrita e analisada por José Edvar Costa de Araújo (v. n. 17).
20 - Livro de Tombo (2: 1959 - 1993), fl. 66. Assim se pronuncia o Pe. Eusébio de Oliveira Lima, Vigário da Paróquia à época: “Grande movimentação na Praça Engenheiro Dória. É a festa da confraternização da família caririense”.
21 - NEVES, Napoleão Tavares., op. cit., 1994. (v. n. 15)
ARAÚJO, José Edvar Costa de., op. cit., 1994.
22 - Livro de Tombo (2: 1959 - 1993), fls. 106 - 107.
23 - NEVES, Napoleão Tavares., op. cit., 1997 (v. n. 15)
ARAÚJO, José Edvar Costa de., op. cit., 1994.
24 - NEVES, Napoleão Tavares. op. cit., 1997. (v. n. 15).